Uma mulher de cabelos vermelhos deitada no chão, no canto inferior esquerdo da imagem, com os cabelos todos em cima do rosto.

Cauda Vermelha

anseia

pela buceta

da sereia

 

coisas

impossíveis

[Terron, Animal anônimo, 2002.]

 

Sem querer eu quase passei por cima dela atirada no asfalto. Embaixo havia uma poça de sangue manchando de escuro a rua onde todo mundo se aproximava. Desajeitado, eu a levantei nos meus braços e subi para a calçada. O cheiro do sangue escorrendo não era o mesmo sangue seco que eu cheirei sem querer numa lata de lixo de banheiro uma vez. Agora eu percebia a diferença, e sentia que aquele sangue se esvaira há pouco do corpo inerte no asfalto. No entanto, não era ela, mas eu, quem estava errado naquele lugar.
Nos meus braços eu carregava aquela bicicleta, e a levava para longe. Sua pele tão branca constrastando com aquela poça em vermelho-vivo, ao lado da roda do ônibus parado, quase sumindo no meio da multidão curiosa. Parecia que ao invés de pernas, ela tinha uma cauda rubra depois da cintura, uma massa de carne amassada. O vermelho do sangue na parte inferior do corpo combinava com o vermelho dos cabelos espalhados no chão, cujas pontas tocavam de leve a borda da poça, formando um degradê. O barulho da ambulância aumentava progressivamente, se aproximando. Doppler. Ela parecia uma sereia. Cabelos espalhados daquele jeito que só cabelos na horizontal ficam, ou cabelos soltos dentro da água. Eu calculava o quanto o sangue havia se espalhado usando fórmulas que surgiam na minha cabeça automaticamente, lembrança daquelas aulas de mecânica dos fluídos. E o efeito Doppler, a percepção da distância da origem do som. Nos meus braços, aqueles vinte quilos de metal, pneu e freios, tudo meio retorcido para um lado. Não sabia para onde levar, o que fazer. Precisava salvar a única coisa que poderia ser salva daquela cena.
Parti com a bicicleta sem ninguém perguntar nada. Joguei para dentro do carro e sumi. Queria ter levado aquela cena toda para dentro de mim e feito tudo ser engolido por aquele buraco negro onde os meus sentimentos sempre se perdiam, e eu não conseguia absorvê-los na sua totalidade. Asperger. Era o nome que eles diziam ter o meu buraco.
Mas alguma coisa naquele sangue espalhado havia feito o meu próprio sangue correr mais rápido. O aquele beijo roubado no dia anterior. Aquela garota naquela mesma bicicleta, me dizendo que a vida tinha cores além daquela escala de cinza que eu enxergava em tudo. Agora ela coloria minha visão de vermelho vivo. E ela mesma não era mais viva ou colorida. Agora ela era branca, que nem o branco da minha escala de cinza. E o vermelho do seu cabelo e do seu sangue só mostrava o quanto não poderíamos estar tão distantes e tão próximos ao mesmo tempo.
Para amanhã, consertar a bicicleta.

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