Rosto de uma mulher em zoom, preenchendo quase toda a tela, sem aparecer os olhos. Em preto e branco.

Felicidade de Ana K.

Todos os homens infelizes são iguais. As mulheres são felizes cada uma de um jeito. Ana era casada com Alex e não transava há quase dois anos com seu marido infeliz. Para melhorar a situação, andava com o tesão ligado no máximo e se sentia ótima com uma pequena alegria semanal: ver pornôs no escuro do banheiro do escritório enquanto todos almoçavam. Mas há dois meses suas fantasias foram tiradas dos pixels da tela do celular e tomaram forma humana. Uma forma bem humana. Vinte e oito anos, um metro e oitenta. O mais novo dos seus seis chefes. Levin, aquele que matraqueava sem parar na sala de reuniões há horas, mordendo os lábios, provocando Ana. Talvez a barba rala dele fosse o tesão. Talvez fosse a potência que mostrava ao assumir um cargo tão alto, sendo tão novo, ou a frustração que ele mostrava naquele momento. Talvez Alex, naquela sua monotonia, lhe desse tesão por ser infeliz tanto quanto aquele garoto. Ela não sabia. Mas o tesão — esse ela sabia — era alguma coisa entre o controle e o desejo, que habitava o íntimo de todo mundo, e de nada dependia do chefe ou do marido.  Arrastou os olhos para a outra chefe, mais madura, mais loira, mais serena. Sentada, cheia de candura, olhando para o garoto de gravata que andava de um lado para o outro, falando sem parar. De certo modo ela também apertava o play do tesão de Ana — que não era nem ninfa, nem MILF, que estava naquele limiar do domínio da vida e do frescor da insegurança sobre si mesma, que habitava sua mente e molhava a sua calcinha em reuniões, que tinha vontades descontroladas em dias de intensa importância no escritório, que via objetos eróticos para tudo que olhava — e ainda eram duas da tarde. Ia demorar para chegar em casa. Ana fantasiava transar na escada-fumódromo do prédio desde as dez da manhã, quando abrira a porta da sua sala. Subitamente levantou, interrompendo o falatório. “Preciso ir ao banheiro, me desculpem”. E precisava mesmo. Muito. Estava se apertando há horas. Precisava muito gozar. Acelerou o passo. Aquilo sempre acontecia. Era inevitável. O dia inteiro de reuniões e muita pressão para aliviar. Não ia dar tempo de passar na farmácia, comprar pilhas, chegar em casa e ligar o vibrador. Ela explodiria muito antes.

— Ana, o Paulo pediu para você ler o recado que deixei na sua mesa desde a hora do almoço, disse que era urgente e que você ia se arrepender se não visse isso a tempo de reparar o mínimo do estrago — tudo aquilo foi dito sem uma pausa, por uma boca que acompanhava dedos de uma mão gelada que tocaram seu braço nu, e fizeram Ana dar um salto.

— Ok, Gabriela, obrigada. — Você quer que eu traga o bilhete para você aqui ou você quer andar até lá? Posso trazer um café também? Você está meio cansada, né? Está acontecendo algo muito grave com a empresa? O que estão falando na reunião?

— Pode deixar que eu mesma pego o bilhete — Ana murmurou, estreitando os olhos, mirando a porta do banheiro no fim do corredor. — Mas eu posso pegar para você, e você está indo para o lado errado do andar, sabia? O que aconteceu? Você vai ter que chamar mais um dos diretores na sala dele? Eu posso fazer isso também, você sabe. Ana, aproveitando, você pode assinar essas autorizações de entrega para eu poder despachar os contratos de amanhã no primeiro horário?

— Não.

— Mas Ana, o motoboy sai antes das nove, e nessa hora você está no meio do caminho para o escritório…

— Eu sei.

— …e depois ele só vem de novo às quatorze, e aí eu já vou ter saído para a aula, e você vai ter que sair da sua sala para a central e… — Gabriela precisava de um pacotinho de respiração, de vírgulas, ou de uma bofetada na cara. — Me dá isso aí.

Ana parou. Arrancou a caneta da mão da estagiária, odiando desde a unha perfeitamente quadrada e vermelha, até o óculos de aro fino e formato aviador. Tudo ali lhe inspirava um ar de desespero. Assinou o papel sobre a palma da mão aberta de Gabriela, que fez uma pequena careta de dor quando Ana pressionou a ponta fina e dura da caneta sobre a folha. Marcou à ferro e fogo a sua rebuscada rubrica em duas vias. Ela também transformou sua irritação em dois floreios que não existiam antes na assinatura. Sentiu a calcinha ensopada e saiu andando firme, ignorando o falatório que seguiu às suas costas.

— Boa tarde!

Olhou para a direita e vislumbrou um sala cheia de computadores, com a porta aberta. Lá de dentro saia um braço metido em um terno azul marinho que se estendia até um sorriso estilo Silvio Santos falando piadas ruins para senhoras senis. Desse braço saía a mão que a agarrava pelo ombro.

— Boa tarde, seu Adenilson — ela respondeu, empurrando a mão do seu ombro.

— Volte aqui, Ana. Quero lhe apresentar para a nova turma de telemarketing que estou treinando. Olha só, não são uns xuxus?

— Olá — ela acenou para as vinte cabeças de vinte e poucos anos, que olhavam de forma curiosa para ela na porta.

— A Ana é uma das nossas melhores gerentes. Começou aqui, nessa sala, como todos vocês — ele agarrou o ombro de Ana de novo, e a girou de modo que pôde a empurrar, de supetão, para dentro da sala. — Conte para eles, como você chegou até aqui, Ana. Não hesite em nos mostrar todos os seus segredos.

— Seu Adenilson, eu adoraria, mas agora preciso resolver um problema…

—Depois você pede para o Levin conversar comigo, Ana. Fica aqui com a gente cinco minutinhos — ele a puxou de volta pela mão. Ana não gostava de contatos físicos com colegas de trabalho e aquele velho senhor já tinha passado todos os limites do seu campo epitelial, uma faixa de mais ou menos 30 centímetros de raio que circulava todo o seu corpo. Aquela sensação misturada com o tesão que ela sentia vir em ondas, desde as suas coxas, até o bico do mamilo dentro do sutiã, teve o efeito ruim de cortar o barato dela. Era como empacar uma foda muito boa.

— Seu Adenilson, não.

E saiu da sala grosseiramente. Cruzou mais um par de portas e nem sinal de Gabriela. Até aquela pentelha não queria ficar a menos de um raio de dois metros de distância do seu Adenilson. Velho safado. Bom, menos mal, conseguira se livrar dos dois. Se permitiu um suspiro de alívio, pegou o celular enquanto andava sem parar, e procurou na tela o aplicativo de filmes pornô. Abriu o programinha e pôs-se a procurar o filme mais curto entre as novidades. Queria chegar no banheiro, e gozar o mais rápido possível. De preferência com aquela ajudinha. Apesar de que ela suspeitava que só de imaginar os lábios do Levin no seu pescoço conseguiria chegar lá em poucos minutos. Estendeu a mão para abrir a porta do banheiro feminino, já torcendo para que todos os cubículos estivessem vazios e ela pudesse ter o máximo de privacidade possível.

Antes de girar a maçaneta da porta ouviu seu nome às suas costas. Ignorou e girou o trinco. Sentiu a mão no ombro. De novo não.

— O que aconteceu, Ana?

Levin estava na sua frente, a ponta da gravata jogada por cima do ombro direito e os dentes mordiscando o lábio inferior. Seu chefe parecia preocupado. Ana virou o pulso para esconder a tela do celular na sua mão e sorriu.

— Vem aqui. Preciso te mostrar uma coisa.

— No banheiro feminino?

— Shh. É confidencial.

_____________________________________________________________

Originalmente publicado em 2015 na coletânea “Incubadora de Serpentes – Zine do laboratório de ficção Contos para o Próximo Milênio”. Selo Demônio Negro.