Uma mulher magra de costas, em um lugar escuro, colocando a mão sobre os ombros meio solta.

Sara Levanta

Ele estava tão profundamente enraízado em sua mente que no primeiro ano de namoro ela tinha a impressão de que todos os homens eram seu namorado disfarçado. Um controle onipresente que a perseguia por todos os lugares e ficava à espreita, aguardando o menor deslize. Havia um único homem salvo à regra.  Ele costumava chamá-la para jogar cartas com certa frequência e ela sempre ia, como se pudesse comprovar que o encanto não tinha poder sobre ele.
ー Meu namoro está bem ー ela disse sentada no chão, cercada de cartas.
ー Vocês se acertaram? ー Rafael levantou os olhos do baralho e a encarou por cima da mão, desconfiado.
ー Acho que sim ー ela suspirou. escolheu algo para descartar e pousou no chão entre eles ー Estou cansada dessas idas e vindas. Mas acho que tenho mais medo de como posso me sentir se a gente terminar.
Sara sabia que deveria fazer voltas e mudar de assunto, mas era difícil sustentar mentiras na frente dele. Seus olhos se encheram d’água. Rafael colocou as cartas no chão, viradas para baixo, e engatinhou até parar bem perto dela e abraçá-la de leve. Três anos de amizade pesavam trinta. Ela pensou em beijá-lo. Não era a primeira vez que sentia essa vontade. Em todas as dezenas de vezes que eles caminharam por dez, quinze, vinte quilômetros juntos nos últimos meses, falando sem parar, ela sentiu essa vontade. Mas nenhuma das vezes ela teve coragem. Não sabia se era a amizade deles ou o namoro dela. Estava mais inclinada ao primeiro. Sara deixou a primeira lágrima rolar e foi caindo num choro baixinho. Ele roçou o nariz na bochecha molhada dela e ela se assustou. Balançou a cabeça, olhou para janela. Mas que se foda.  Virou e grudou seus lábios na boca dele, puxou ele para si e fechou os olhos. Ele ficou completamente imóvel por meio segundo, mas logo a apertou de volta. O beijo foi longo. Ele a pressionou contra a parede ao lado da janela. Ela ainda tinha algumas lágrimas brotando pelo canto dos olhos, mas elas secavam rápido. Só parou de beijá-lo para fazer a camisa dele passar por cima da cabeça, arrancando sua roupa, jogando-a longe. Ele a pegou pela cintura com as duas mãos e a fez sentar na cama, com um único movimento. Hesitou um pouco antes de puxar a camiseta dela para cima e pousá-la delicadamente na cadeira próxima da cama. Beijaram-se com mais violência, como se ambos tivessem corrido duzentos quilômetros sem parar, um correndo em direção ao outro para se encontrar no meio de uma estrada. Ele parou repentinamente, segurou a mão dela e sentou na cama.
– O que foi? – ela perguntou sem sair de onde estava.
– Não dá. Não consigo – ele respondeu sentado na cama, de costas pra ela, estalando os dedos nervosamente.
Ela continuou parada por alguns segundos. Pensou em perguntar o que se passava, mas desistiu. Antes que ele falasse qualquer outra coisa, Sara estava em pé juntando sua roupa.
– Tudo bem. Eu me precipitei – ela murmurou juntando um brinco que havia caído no chão.
Ele segurou o braço dela.
– Não vai embora. Vamos conversar?
– Não. Preciso ir – ela falou secamente, embora não tivesse a intenção.
Ao abrir a porta do quarto para ir embora, ela deu de cara com a mãe e a irmã dele entrando pela porta da sala.
– Sara! – a mãe dele sorriu – Não sabia que teríamos visita hoje. Tudo bem?
– Sim, dona Catarina – ela sorriu, e continuou se dirigindo para a porta – Mas já estou indo embora. Bom ver vocês! – de forma abrupta, passou pela porta da frente e saiu correndo pelas escadas do edifício.
Na rua, o sol do início da tarde iluminava o ponto de ônibus. Ela puxou um cigarro da bolsa e encostou o ombro em um poste. Eu sabia que isso ia acontecer. Riu de si mesma com tristeza. Algum instinto disparou um sinal de alarme dentro dela. Eu vou ser punida por isso. Ela sabia que tinha alguma coisa errada. Olhou as mensagens do celular. Dez chamadas não atendidas de Eric, o namorado. Ele havia deixado algumas mensagens de texto também, perguntando aonde ela estava e a chamando para ficar com ele naquele sábado. Com uma mão ela mantinha o Lucky Strike vermelho entre os dedos, com a outra segurava e digitava no aparelho “Desculpa. Estava dormindo. Já estou indo para aí”. Ela não queria ir, mas se sentia culpada. Não queria mais vê-lo. Não o amava mais. Não tinha mais tesão por ele. Ultimamente era mais fácil ter fantasias com qualquer outro homem com quem se relacionasse, menos com seu namorado. Ela conversou com ele várias vezes ao longo de seis meses, querendo terminar o namoro, mas ele a ameaçara todas as vezes. Se ela o deixasse, ele cortaria os pulsos. Tomaria uma cartela de remédio para dormir. Se jogaria do prédio da faculdade. Um dia Eric a viu rindo com alguns colegas, e quando ela chegou na casa dele para se arrumarem para ir para uma festa, ele deu um soco no seu rosto. “Para você aprender a não ser tão piranha. Cadela assim, só na minha cama”. Com o tempo, esses acessos de raiva viraram rotina, e ela sempre cuidava onde ia, com quem falava e o que fazia, para que ele não pensasse nada demais. Ir na casa de Rafael seria um pecado mortal. Todas as mensagens que ela trocava com o amigo eram monitoradas por Eric, com a premissa de que Rafael queria ir para cama com ela, e ela era inocente o suficiente para não acreditar nisso. Na verdade, Sara nunca tinha pensado seriamente em dormir com Rafael até aquilo tudo começar. Eric não fazia a mínima ideia, mas era ele quem havia dado aquela ideia a ela.
Apagou o cigarro e subiu no ônibus. O trajeto demoraria uns quarenta minutos, então puxou o headphone para fora da bolsa, ligou um albúm do Alice in Chains baixinho, e tentou não pensar no que a esperava no fim do caminho. Adormeceu com a cabeça encostada na janela do ônibus vazio.
Ela andava por uma casa velha e vazia, procurando a porta para sair. Ouvia o barulho de água correndo em algum lugar, mas não sabia de qual direção. Era como se viesse de todas as direções e a casa a qualquer momento inundaria. Os corredores eram escuros e as paredes de madeira. O chão rangia por baixo de suas botas, e ela sabia que precisava fazer silêncio, mas simplesmente não conseguia. Ela andou e andou, mas não achou nenhuma porta para sair. O barulho da água foi ficando mais alto. Ela parou por um instante, se perguntando porque na casa havia só corredores e nenhum comodo ou móveis. Ao parar, ela se sentiu tonta e percebeu que a casa se mexia. Levemente, mas alguns tremores mostravam que algo deslizava pelas paredes da casa, a movimentando. Ela olhou para traz e vislumbrou as patas negras e peludas de uma aranha do tamanho do seu pé caminhando lentamente atrás dela. Segurou a respiração com a palma da mão pressionando a própria boca e ficou imóvel. A aranha passou por ela devagar, enquanto ela notava cada detalhe do toráx da aranha, cada olho brotando do emaranhado de fios grossos que a cobriam. Ela não quis voltar. Seguiu a aranha monstruosa à cinco passos de distância, a medida que a pouca luz dos corredores permitia. Mas a escuridão a engoliu. Ouviu um grito vindo do fim do corredor e se assustou. Acordou.
Faltava apenas um ponto de ônibus para ela descer. A música já havia parado no seu fone, e o ônibus continuava vazio. Lá fora o sol se afogava em um céu nublado e ela sentiu um cheiro fraco de chuva vindo. Ao descer do ônibus foi tocada por um vento morno e úmido.
Chegou no prédio do apartamento de Eric. Ele a recebeu sozinho em casa, vestindo só cuecas. Estava aguardando o início de um jogo de futebol na televisão. Ela sentou no sofá, tirou as botas. Ele sentou do lado.
– Quer beber alguma coisa, gata?
– Não, Eric. Valeu – ela ficou encarando a televisão, sentada de pernas cruzadas no sofá novo e perfeito.
– Por que você está com essa cara? – ele puxou o rosto dela pelo queixo, fazendo-a se virar à força e encará-lo ao seu lado no sofá.
– Não é nada… Acho que estou com cólica – mentiu.
Ele sorriu. Soltou o rosto dela e se voltou para a televisão, onde alguns jogadores de futebol davam entrevistas antes de entrar em jogo. O celular dela tocou. Era Rafael. Ela havia mudado o nome dele na agenda telefônica para “Lucia-faculdade” como uma forma de evitar qualquer atrito com Eric. Ela olhou para a tela do celular e negou a chamada. Colocou o celular no modo silencioso. Mas Eric já havia espiado a tela do telefone antes de ela fazer tudo isso.
– Por que não atendeu a sua amiga? – ele ergueu as sobrancelhas e baixou o volume da televisão pelo controle remoto.
– Não estou afim de falar com ela agora.
– Por quê? – ele continuava a encarando e a televisão permanecia com o volume baixo. Isso não era bom.
– Porque ela é chata.
Ele deu uma risadinha e largou o controle no sofá. Se aproximou mais dela e pousou uma mão na sua coxa.
– Sabe… Se você está com cólica, quer dizer que logo vai estar menstruada. Você sabe que eu não gosto de transar com você daquele jeito. Acho que a gente deveria aproveitar e fazer alguma coisa agora, antes do jogo. Hum? – ele apertou a coxa dela e mordeu o ombro dela forte. Ela engoliu em seco. Respirou fundo.
– Não, Eric – ela se afastou e retirou a mão dele da sua coxa – Hoje não. Estou dolorida.
Era mentira, mas ela não estava afim de transar com ele. Ela estava afim de transar com metade dos homens que conhecia, menos com ele. Eric ignorou o que Sara disse e pulou em cima dela. Mordeu seu ombro e o seu pescoço. Ela sentiu seus dentes cravarem na sua pele. Lembrou do pesadelo que tivera no ônibus e pensou que era bem melhor estar perdida dentro de uma casa sem saída, com uma aranha gigante, do que ali com ele a lambendo e mordendo, arrancando sua roupa. Eric conseguia arrancar as roupas dela com a destreza de um mágico que arranca a toalha de uma mesa de chá sem deixar cair nenhuma xícara. Em alguns segundos ela estava só de calcinha, sutiã e meias. Ela empurrou a cabeça dele para longe do seu corpo. Sentia a língua dele salivando em cima dela, era a coisa mais nojenta do mundo. A medida que ele foi forçando o corpo em cima do dela, Sara foi tentando desligar. Algumas semanas antes ela aprendera a fazer aquilo para quando ela sentia que não tinha mais controle sobre o próprio corpo e ficava a mercê de Eric. De alguma forma, ela aprendeu a levar sua mente para um outro lugar, bem longe, onde ela se encontrava em uma espécie de dimensão paralela e conectada ao mundo dos sonhos. Eric virou um pouco o quadril por cima do corpo dela, tirando a própria cueca. Quando sentiu ele forçando caminho por entre suas pernas, fechou a virilha e resistiu o máximo que pôde. Apertou os olhos para receber a bofetada da mão fechada dele que caía em direção ao rosto dela como um martelo de juiz. Punida. O punho que a esbofeteava tinha o mesmo tamanho do útero que ela guardava dentro de si. Ela havia lido aquilo umas semanas antes em um livro. Era como se o martelo fosse a mão, o útero, o julgamento. Sua mente estava delirando.
Ela apagou por alguns segundos. O fluxo de pensamentos e a bofetada tornavam mais fácil o processo de desligar de verdade. Desistiu de resistir. Não queria ter que explicar marcas e inchaços no rosto para as pessoas do mundo real, no dia seguinte. Então, ao primeiro sinal de que podia retomar a consciência e pensar naquelas coisas, fechou os olhos e focou em desligar. Fecha os olhos. Respira e conta, respira e conta, respira e conta. Prende a respiração. Conta. Não respira. Segura. Dormência. Conta. Segura mais. Escuro. Seu corpo inteiro se soltou. E ela, soltou-se do corpo.
Apareceu do outro lado da sala. Seu corpo continuava no mesmo lugar, mas ela o via de um ponto no canto da sala, assistindo à cena do seu estupro do lado de fora da própria carne. Seu corpo todo frouxo em cima do sofá, e ao mesmo tempo retesado, como uma boneca de pano. Eric investia contra ela com vontade, rindo. Espalmou a mão direita e bateu no rosto dela, com a parte de fora da mão, que permaneceu imóvel e inalterado. Olhos fechados, desacordada. Com a mão esquerda ele segurou o cabelo dela contra a almofada do sofá e puxou forte. Ela não sentia nada. Era uma cena muda, do canto onde ela estava não ouvia barulho nenhum. Mas olhava para aquilo perplexa, ao lado da televisão, como um corpo etéreo e à parte. Um clone. Aquilo nunca tinha acontecido antes. Normalmente quando desligava, ela ia para um mundo de sonhos e pesadelos, acordando algumas horas depois, como se tivesse dormido um sono pesado e sofrido. Mas ali à sua frente também havia mais alguém, ao lado do sofá. Um terceiro indivíduo na sala. Alguém que olhava para ela agora.
Uma criatura de três cabeças. E um corpo enorme. Uma cabeça de touro olhava para a cena que ocorria em cima do sofá, outra cabeça, de carneiro, para a televisão e a terceira cabeça, humana, olhava para ela. Ela quis gritar mas sentiu a voz presa na garganta.
A criatura permanecia com o rosto humano sério, enquanto a cabeça de touro relinchava de leve. Um par de asas despontava por sobre o torso, fechadas, negras e reptilianas. A cabeça humana era masculina e sustentava um olhar duro. Abriu a boca e falou.
– Posso acabar com isso – sua voz vinha acompanhada de um hálito quente e fedido que preenchia o cômodo todo – Basta dizer que queres.
– Quem é você? – ela sussurrou, a voz mal saindo da garganta e ainda incapaz de se mover ao encarar a criatura.
– Eu não tenho nenhum nome, Sara – o rosto era quase uma rocha impassível – E sou uma multidão.
Ela ficou calada. Ao fundo o seu corpo ainda era tomado à força por Eric em cima do sofá, completamente alheio a fantástica aparição que ocupava metade da sua sala. A criatura se moveu, exibindo um corpo disforme, como se fosse montado dos retalhos de vários animais, de diferentes tamanhos e reinos. Um monstro de Shelley, selvagem, e aquela cabeça de gente completamente fora de contexto. Ela sentiu algo a atingir de dentro para fora, como uma lembrança distante de algo que ela nunca viu. Um estranho dejá vu.
– Você sempre esteve aqui, não? – ela estranhou a firmeza da própria voz. As três cabeças viraram na direção dela. Sara se assustou com a cabeça de touro, enorme, aquele par de olhos negros a encarando e refletindo a luz esverdeada que saía da televisão, o jogo de futebol começando.
– Eu vivo em ti – a cabeça humana pronunciou, sem emoção, como se fosse uma constatação de fatos – Nos conectamos em teu sofrimento.
– E por que nunca me ajudou antes? – era estranho conversar com a criatura.
– Precisas pedir.
Sara olhou para o seu corpo, parcialmente iluminado pela televisão, com uma aura verde fantasmagórica. Parecia um desenho de animação infantil sombria. Seus membros se sacudiam sem vida enquanto ela era violentada repetidamente. Eric batia em seu rosto sem parar. Daquele jeito que só ele sabia fazer, machucando sem marcar. De repente, com uma das mãos ele empurrou a sua coxa esquerda para cima, abrindo mais espaço entre as pernas dela. Ela sentiu uma pontada aguda na virilha. Era um alarme. Em breve ela voltaria para o corpo e acordaria. E então toda a dor viria como um golpe só. Ainda que a dor do corpo jamais superasse a dor da alma e a vergonha que ela sentia nos dias seguintes. Ela sempre precisava juntar seus caquinhos depois que tudo acabava. E ela não tinha muito tempo.
– Eu quero. Acabe com isso.
Sara se surpreendeu com a força e a rapidez com que a decisão foi tomada. Não fazia a menor ideia do que aquilo queria dizer, mas precisava fazer algo a respeito. Seu sonho lhe pareceu estranhamente lúcido. Por um segundo percebeu que o delírio da dor poderia ter posto aquele ser demoníaco na sua mente, como uma forma inesperada de conforto. Para que se sentisse guardada por alguém, mesmo que fosse uma força oculta da sua imaginação. Mas seu breve momento de especulação foi interrompido por um movimento repentino na sala. O rosto da cabeça humana sorriu. Uma das sobrancelhas se arqueou e a criatura abriu as asas. Um cheiro forte invadiu a sala, como de algo putrefato queimando, soltando uma fumaça suja e velha. Sara sentiu calor. Aquele sorriso era medonho. Em um segundo seu corpo inteiro foi tomado pela sensação de estar queimando. Gritou. Sentiu cada célula da sua pele romper e escorrer, deixando suas entranhas à mostra. Sentiu seus membros tremerem, e a sala inteira ser tomada pelo fogo. Urrou de dor. A sala sumiu em uma fumaça negra. Caiu. Fechou os olhos. Era o fim.
Em alguns segundos sentiu sua pele toda grudada de volta ao corpo. Intacta. Sem dor. Os nós dos seus dedos seguravam alguma coisa, e um líquido quente escorria pelo seu rosto. Abriu os olhos e percebeu a visão embaçada. Piscou para tentar limpar o que quer que estivesse em seus olhos. As coisas começaram a ficar nítidas.
Ela estava ajoelhada, com as pernas abertas, em cima do sofá. Embaixo dela, um homem. Eric. Deitado de barriga para cima. Os joelhos de Sara estavam apoiados nos cotovelos abertos de Eric, prendendo-o com o peso do próprio corpo. As mãos dela seguravam seu pescoço. Ela entendeu, pela primeira vez, a sensação de estar verdadeiramente horrorizada. Eric estava imóvel. As mãos de Sara estavam vermelhas de algo viscoso e vermelho vivo. Seu rosto também. Ela olhou a face de Eric e não conseguiu distinguir boa parte das feições. Só sabia que era ele pela roupa e pelo corpo. A verdade era que não havia mais rosto.
Boa parte da pele da cabeça dele havia sido arrancada. À unha, ao que parecia.
Ela começou a se mexer para levantar, ainda que muito devagar. Ela tremia. Tentou gritar, mas não conseguia abrir a boca. Soltou uma espécie de grunhido agudo que lhe machucou a garganta. Olhou para os lados mas não havia sinal nenhum da criatura. Na televisão, o jogo continuava acontecendo. A voz irritante do narrador preenchendo todo o cômodo. O sofá imundo de sangue. Seus dedos doeram quando ela os abriu. Soltou o pescoço de Eric e a cabeça dele tombou para trás. Ele estava imóvel.
Sara saltou do sofá. Parecia que seu sangue começava a voltar a circular pelo corpo bruscamente, como uma injeção de adrenalina. Começou se mexer automaticamente. Sentia um formigamento estranho por baixo da pele enquanto se movimentava. Foi ao banheiro e tirou pedaços de pele presos por baixo de suas unhas, ainda horrorizada, mas incapaz de parar. Parecia que uma consciência secundária a fazia se mexer, numa espécie de alarme de sobrevivência, enquanto sua mente paralizava em algum lugar onde ainda não podia processar o que estava acontecendo. Lavou os braços e os joelhos. Vestiu uma cueca de Eric, juntou suas roupas que estavam sobre o tapete da sala. Guardou o sutiã e a calcinha sujos de sangue em um saco plástico que jogou na sua mochila. Lavou o rosto e os cabelos na pia, com água e sabonete. Com pressa. Se vestiu. Voltou para a sala. Três a um. Pela primeira vez, depois que acordara, tomou consciência de que a televisão ainda estava ligada e vozes saiam dali. Gol do time adversário. Eric ficaria irritado. Sara estremeceu. Ela seria punida pelo time dele que estava perdendo o jogo.
Então ela olhou para o corpo inerte no sofá vermelho manchado. Sua boca inteira se contraiu em um colapso e ela não conseguiu parar. Era um arremedo de um sorriso estranho. Não era algo prazeroso, mas ela não conseguiu conter. O sorriso virou uma gargalhada. E então, um ataque de risos. Caiu ajoelhada rindo sem parar. Três a um! E Eric não podia fazer mais nada a respeito. Hahaha.
Demorou alguns minutos para ela conseguir voltar a respirar normalmente após o acesso. Se recompôs e saiu do apartamento correndo, sem nem trancar a porta ou desligar a televisão. Atrás dela o narrador anunciava o fim do primeiro tempo. Parou de correr ao cruzar a porta do prédio e alcançar a calçada da rua. O ar ainda estava quente, mas uma chuva fina caía refrescando seu corpo. Típico do verão dos trópicos. O formigamento que sentia pela pele começou a diminuir. Ela pensou que seria finalmente esmagada pela dor que sempre vinha depois de ter sido violentada. Mas não sentiu nada daquela vez. Era como se algo dentro da sua mente tivesse se conectado ao corpo, para restaurá-lo. Sara parou de pensar demais. Sentiu uma sede estranha invadir seus sentidos. Pegou o celular e digitou “posso voltar para aí?”. Talvez fosse cedo demais para voltar à casa do amigo. Hesitou por alguns segundos esperando uma resposta negativa, pedindo que ela não fosse. Mas dois minutos depois recebeu um simples “estou te esperando”. Ela já estava dentro do ônibus.
Rafael a recebeu em casa com uma expressão intrigada. Abriu a porta de bermuda e camiseta. Ela não deu oi.
– Tem alguém aí com você?
– Não – ele falou franzindo a testa – Minha mãe e minha irmã saíram para comprar coisas para o jantar.
– Ótimo.
Ela colocou as duas mãos no ombro dele e avançou. Com o impulso e a força dela, Rafael andou para trás. Sara grudou sua boca na dele pela segunda vez aquele dia. Ela empurrou a porta com o pé, de costas, sem parar de beijá-lo. A porta bateu com um estrondo. E eles foram andando em uma dança estranha até baterem em uma parede. Na televisão ligada na sala, o narrador anunciava o segundo tempo do jogo.
Rafael a arrastou para o seu quarto; e lá estavam eles de novo. Bateram a porta atrás de si. Beijos violentos e roupas arrancadas. Ele a jogou em cima da cama e caiu por cima dela. Dessa vez ele foi rápido, apertando e sugando os seios dela, enquanto ela pressionava a cabeça dele mais para baixo, em direção a sua virilha.
– Você trocou de roupa? – ele parou, encarando a cueca que ela se vestia.
– Parece que sim, não? – ela afagou o cabelo dele – Tive um contratempo, nada demais.
– Ok. Bem, que bom que você voltou – ele susssurrou no ouvido dela.
Ela deu de ombros. Rafael arrancou a cueca dela, deixando-a nua. De fora do quarto veio o som da porta da casa sendo aberta, e uma profusão de barulhos e vozes invadir a sala. Alguém chegava apressado para assistir ao jogo. Aumentaram o volume da televisão. Eles não se importaram. Rafael subiu pelo corpo de Sara sem parar de beijá-la. Levou a mão para um ponto fora da cama, fazendo o braço sumir em direção ao chão. Ergueu uma das sobrancelhas em um segundo de atenção, e logo puxou o braço de volta, abrindo um pacote de camisinha. Sara sorriu satisfeita.
Foi sentindo o ar ficando úmido a medida que eles se mexiam na cama, fazendo barulho. O calor que emanava do seu baixo-ventre era violento. Ela percebeu algo se eriçar em suas costas e sentiu vontade de ficar por cima. Puxou o peito de Rafael para baixo, de encontro ao seu, e com um impulso virou os dois corpos. Agora ele estava embaixo. Não precisou interromper os movimentos contínuos para trocar de posição. O som do apito do jogo, abafado pelas paredes, anunciava faltas. O jogo estava ficando violento, segundo a narração. Sara ergueu o tronco e impulsionou suas coxas com mais força, para cima, para baixo. Rafael gemia e arranhava a parte de baixo de suas costas. Ela sentiu mais calor subindo pela espinha, e os músculos do seu corpo esquentando. Percebeu algo se agitando por cima de todos os poros da sua pele, como se eles se abrissem para que toda uma nova sensação entrasse por eles. Pôde perceber tudo. O peso dos seus seios à frente do corpo, a violência dos seus quadris em movimento, Rafael ficando mais e mais duro dentro dela, os cabelos se movimentando com as pontinhas ainda úmidas e frias tocando a pele quente dos seus ombros nus. Sentiu todo o corpo se abrir. Do topo da cabeça, de onde despontava cada fio de cabelo, até a pontinha de todos os dedos do pé. Algo estava vindo de dentro dela. Alguma coisa grande. Alguma coisa deliciosa.
Goool. Quatro a um. As pessoas gritaram na sala, e alguém do lado de fora do apartamento, na rua, também. Sara sorriu ainda mais. Rafael olhou para ela como se a estivesse vendo pela primeira vez.
– Você manda muito bem – ele ofegou e gemeu – Não sei o que você está fazendo comigo, mas está dando muito certo. Meu Deus, não pára. Por favor.
Sara riu do apelo dele. Começou a mexer mais forte. A chama dentro dela se intensificou. Não pensava em absolutamente nada. Seu cérebro se esvaziava sem esforço. Mas ao invés de sair de dentro dele, ela se voltava cada vez mais para dentro de si. Estabelecia uma conexão entre si mesma e suas células, como se ela inteira fosse uma grande orquestra chegando ao ápice de uma sinfonia frenética e absoluta. As unhas de Rafael se enterraram no quadril dela e dois fios de sangue escorreram, um de cada lado. Ela sentiu o cheiro do sangue saindo de dentro dela, tal qual um jarro de vida transbordando. Cravou suas unhas no peito dele. Ele gemeu, mas não interrompeu. Ela puxou as mãos para baixo com força, suas garras marcando caminho na pele suada do peito dele. Fios de sangue. Aquilo iria arder depois. Ainda montada nele, ela abaixou mais o tronco, se contorceu um pouco para o lado, e tocou os arranhões no peito dele com a língua. Era mais difícil se movimentar assim, ela arqueava as costas com dificuldade. Mas o sangue dele era uma delícia. Ele continuou implorando para ela não parar. Ela continuou lambendo.
Com a boca manchada do sangue de Rafael, Sara se ergueu de novo, sentada. A sensação dos poros se abrindo voltou, mas dessa vez era como se tudo se originasse daquela sinfonia vinda de baixo para cima, em direção ao gosto salgado, metálico e quente na sua boca. Seus sentidos se aguçaram. De repente ela conseguia ouvir barulhos vindo de todas as partes do quarto. Um mosquito zunindo próximo a janela, um relógio de ponteiros marcando os segundos, tic-tac, em algum canto perto do armário. Alguém virando grãos de milho em uma panela, em algum ponto da casa, os grãos caindo um por um em cima do outro. Duas crianças conversando do lado de fora do prédio, planejando onde se esconderiam enquanto uma terceira criança contava até dez, aos sussurros, no início de uma sessão de esconde-esconde. Inúmeros apartamentos com a televisão ligada. Um bebê balbuciando sons indistintos. Um casal transando. Sentiu todos os cheiros em uma inspiração. Seus olhos captaram todos os objetos do quarto, de uma só vez, ainda que a luz estivesse apagada.
Enquanto Sara diminuía o ritmo por alguns segundos, inebriada daquele torpor, Rafael gemeu alto e imediatamente parou tudo o que estava fazendo. Seu corpo relaxou repentinamente embaixo das pernas dela. Sara voltou o foco para si, se inclinou mais para frente, apoiando as mãos nos braços dele, e voltou a se mexer mais rápido. Foi fácil se concentrar no movimento, mesmo com todas aquelas sensações a invadindo. Rafael voltou a si, segurou os seios de Sara com as duas mãos e sorriu. Ela sentiu ondas de calor a invadindo até começar a gemer mais alto. Sacudiu-se violentamente. Espasmos. Todos os músculos convulsionando juntos. Fechou os olhos e deixou-se ir.
Outro gol. Dessa vez, seguido por rojões que estouravam por todos os lados da cidade. Rafael gritou. Não um grito de prazer, mas um grito de terror. No quarto, o silêncio preencheu o espaço. Sara abriu os olhos vagarosamente. Ela não precisava ver para saber o que tinha acontecido. Rafael permaneceu imóvel, aterrorizado, enquanto olhava fixamente um ponto acima da cabeça dela. Sara sorriu. Alguém bateu na porta no quarto.
– Rafael?… – era a voz tímida e preocupada da mãe dele. Ele não pareceu nem notar que a mãe o chamava, continuava olhando chocado para Sara.
– Está tudo bem, dona Catarina – ela respondeu para a porta fechada – É a Sara aqui. Eu e Rafael estamos vendo um filme.
– Ok… – a mulher respondeu ainda com uma nota de hesitação – Mas está tudo bem mesmo? Acho que ouvi um grito.
Sara mexeu o pescoço de um lado para o outro, inclinando a cabeça de lado. Algum osso estalou alto. Olhou seu reflexo no espelho grande, que ficava na parede oposta à cama de Rafael.
Um par de asas enorme despontava das costas dela. Negras. Uma garra em cada ponta, que quase encostavam no teto. Fios de sangue escorriam pelo buraco de pele de onde as asas se erguiam. O lençol da cama estava manchado.
– Sim, dona Catarina. Está tudo bem agora.
Sara olhou para o rosto de Rafael, com o corpo ainda debaixo do dela. Ele estava branco. Ela piscou um olho para ele e levou um dos seus dedos à boca.
– Shhhh.